“A FACA NÃO CORTA O FOGO
não me corta o sangue escrito,
não corta a água,
e quem não queria uma língua dentro da própria língua?
eu sim queria”.
Herberto Helder é uma ilha.
Uma língua dentro da língua.
Não tem época, corrente ou agenda.
Não é surrealista ou neo-realista.
Não é isto nem aquilo.
Não cabe nas classificações nem nas gavetas do seu tempo, do nosso tempo.
É “mãe louca à volta sentadamente completa”.
Encontrou um “estilo” e com ele a nossa “cabeça estremece com todo o esquecimento”.
O Herberto dito é uma avalanche de imagens por cima e por dentro da cabeça, no sopé do vulcão.
A companhia Musgo com o Município de Oeiras lançaram-me o desafio de criar um espectáculo com um poeta e um músico à minha escolha. Escolhi o Herberto e o percussionista uruguaio Andrés “Pancho” Tarabbia. A pandemia atirou o projecto para um vídeo de mais curta duração no ‘Templo da Poesia’.
Agora fazemo-lo crescer na boca, nos dedos e na pele para trazermos finalmente em palco “A faca não corta o fogo” a ver se “o poema cresce inseguramente na confusão da carne”.
Sabemos que com Herberto “Por vezes tudo se ilumina. Por vezes sangra e canta.”
Seguimos juntos por dentro da voz, das palavras, do ritmo, da música, do desarrumo das imagens, à procura do Herberto. “é preciso pensar no ‘ritmo’ é uma das nossas congeminações exaltadas”.
Vamos a jogo.
“Em cada espasmo eu morrerei contigo”.
Pedro Lamares
(Todas as citações são de Herberto Helder)
direcção e dramaturgia Pedro Lamares
interpretação Andrés Pancho Tarabbia e Pedro Lamares
direção técnica e desenho de luz Joaquim Madaíl
fotografia Vitorino Coragem
produção, difusão e promoção Companhia Nacional de Espectáculos
Andrés ‘Pancho’ Tarabbia (n. 1968) é percussionista e compositor. O seu percurso começa na escola pública de música de Maldonado (Uruguai) e continua com a sua passagem por diversos países, como Cuba, Brasil, Espanha, Angola e Guiné Conacri, para estudar a sua música folclórica. Como intérprete fez parte de grupos como Expensive Soul, Clã e Orquestra de Jazz de Matosinhos (neste último acompanhou músicos internacionais como Maria Rita, Maria Shnaider, Mayra Andrade, Carla Blay, Marc Turner entre outros). Nos últimos 20 anos reside em Portugal onde colaborou com nomes como Dino de Santiago, Santos e Pecadores. Com a Orquestra de jazz de Espinho, acompanhou músicos como Hermeto Pascoal, Richard Bona, entre outros.
Colaborou com inúmeros grupos portugueses na gravação dos seus discos. Também trabalha na área de ação social e música com comunidades como no Serviço Educativo da Casa da Música, “Grito dos Tambores” na Viagem Medieval de Santa Maria da Feira, com o Teatro do Bolhão, entre outros.
Atualmente faz parte dos grupos RETIMBRAR como mentor, intérprete e composição. Participa em BLUE SEA PROJECT e YOSUNE.